Páginas

quarta-feira, 22 de março de 2017

DO PASSADO AO FUTURO: A POSIÇÃO DO NEGRO NO MERCADO DE TRABALHO

Pesquisa realizada pelo Departamento Intersindical de estatística e Estudos Socioeconomicos (o DIEESE) apontou um índice de desemprego que chega a ser até oito vezes maior para a população negra em relação à branca, principalmente entre as mulheres.

Ana Vasconcellos, mulher negra de quarenta e sete anos, é formada em jornalismo pela FIAM/FAAM, e atua como coordenadora de comunicação e captação de recursos do Projeto Quixote (ONG) há um ano e meio. Ela aceitou o convite para debater a posição do negro no espaço de trabalho – assim como na sociedade em si – nos contou experiências pessoais e o que espera para o futuro de seus filhos.

Na foto: entrevistada (Ana) à esquerda e entrevistadora (Isadora) à direita no Projeto Quixote.
Sua carreira começou pouco antes de terminar a faculdade, quando foi contratada para ser recepcionista em uma produtora.

“Ah, eu consegui esse emprego porque eu era amiga de um dos donos” - Ana faz questão de enfatizar – “Porque pra conseguir emprego era muito difícil: você fazia processo seletivo, tinham dez meninas e se você era preta já sabia que não ia passar. Então você fazia toda a prova, todo o processo seletivo pra chegar na hora e não te escolherem.”

Após ficar apenas um mês e meio na recepção, foi convidada a ser assistente da coordenadora de produção onde aprendeu na prática como as coisas funcionavam. Passados mais dois anos começou a atuar como produtora e, logo após, coordenadora de produção. Ao todo, Ana conta que passou cerca de oito anos dentro desta produtora, alternando entre projetos pequenos e outros maiores. “E o último grande foi o Telecurso, pra Fundação Marinho (Globo)... Acho que fiquei quatro anos e meio só nesse projeto. E nisso eu já era assistente de direção geral e cuidava de toda a entrada das gravações e todas as saídas também, era muito legal. Deu bastante trabalho, mas conheci bastante gente bacana também.”- conta.

Ana conta que todos os trabalhos que fez tiveram algum impacto social. “O Telecurso dava aula e, depois que sai dessa produtora fui pra outra que viajei o Brasil inteiro fazendo projetos culturais que também eram de televisão, que ensinava professoras e tal... Todos ligados ao MEC ou ao ministério da cultura. Todos assim, mas nenhuma tinha nenhum contato tão direto com a cultura que nem aqui no (Projeto) Quixote."

Ao retornar para São Paulo, ela conta que participou da exposição “Brasil 500 Anos” realizada no Parque Ibirapuera, sobre o descobrimento do país, então conta com excitação seu ponto de vista sobre estes trabalhos:

"É muito legal porque você faz a arte aqui e leva pra outra cidade, as pessoas vão visitando, as escolas levam os alunos... E por mais distante que seja a arte pra um aluno de colégio público, por exemplo, ele passou por aquela tela e alguma coisa dela ficou. A arte desperta algo, mesmo que não seja ali naquele momento, quando ele crescer aquele negócio que ele viu lá atrás na minha exposição vai interferir na vida dele. Então trabalhar com arte é legal por causa disso.”E ainda relata que as exposições mais importantes que realizou foram dos desenhos quilométricos de Keith Haring e com as polaróides do Andy Warhol.

Ao ser questionada se ela ainda encontra dificuldades em ser ouvida, principalmente por questões raciais, Ana é categórica ao dizer que não, e explica que acabou desenhando uma carreira que chama de 'comer pelas bordas'. – “Primeiro porque, pelo meu perfil mesmo, não queria trabalhar em uma grande corporação onde você encontra mais esse empecilho. Quando eu tentei, no começo, eles nem me colocaram. Ou me assediavam, nas entrevistas... Existe uma ligação direta entre ser mulher negra e ser assediada. Mas como eu sempre trabalhei com cultura, arte, as pessoas eram mais esclarecidas então eu sempre fui ouvida. Também porque você vai criando um espaço, e quando você é mulher negra, tem que aprender a lidar com coisas e se colocar de outra maneira desde pequena. Desde criancinha você tem que ser descolada, estar antenada... Você tem que ser a mais simpática, não pode errar... Ou então tem que achar seu potencial e características e se destacar. Ou você fica num canto, mas eu nunca quis isso. Mas você tem que criar uma bagagem desde pequena, porque na escola você já se f***, ela já te detona no seu primeiro dia. Eu fui detonada no meu primeiro dia, com 5 anos eu já fui massacrada. A sorte é que eu cheguei em casa e minha mãe me disse 'você é preta mesmo, não precisa chorar.', porque até então eu nem tinha me ligado nisso." Relata Ana. " E aí ela (a mãe de Ana) explicou que eu não sou feia, nem suja, nem nada disso... E, não sei como, eu consegui compreender aquilo e, no dia seguinte voltei pra escola com uma outra visão e a partir desse dia já enxerguei tudo de outra maneira. Aí quando você fala que mulher negra tem que estar preparada pra mais coisa, quem é branco fala que a gente é racista ou que tem mania de perseguição porque a gente só fala disso. Mas eu falo disso porque eu sofro disso, vou falar do que? Quando eu tava na faculdade tinha colega que falava que quando foi pra França também sofreu por ser brasileira. Só que você tava lá na França, e eu não conseguia arruma emprego pra comer, precisava ajudar a minha mãe a sustentar minhas irmãs porque meu pai tinha morrido, e aí? E você não consegue sua independência porque você é preto e o cara não te dá um emprego. E ser preto ainda tem uma coisa assim: se você é gordo, ainda consegue emagrecer se se esforçar. Mas eu sou preta! Não dá pra tirar, nem quero, mas não dá. Se você usa óculos, opera. Mas agora, você é preta? Você é!"

Apesar de afirmar que é, sim, ouvida no seu meio de trabalho, Ana ressalta o outro lado de se estar no meio cultural: o elitismo.“ Quando eu vou em uma exposição de arte, numa abertura ou em algum evento de um patrocinador, eu sempre sou a única preta do lugar. Sempre. Então eu falo que uma das minhas funções sociais é estar nesses lugares. Aí eu entro e as pessoas não sabem o que eu sou direito. Ou eu sou artista, porque né, pra estar ali... Ou sou a garçonete ou sou a babá de alguém. Não digo que sofro por isso, mas eu sinto."

Quando se trata do porquê do negro não conseguir estar em níveis hierárquicos elevados, Ana crê que existe, sim, o não conseguir, mas que também há o se acomodar naquela posição de oprimido. Ela diz que conhece algumas pessoas que não estudam porque "é difícil", e começam a desistir mesmo.


Ana Vasconcellos, jornalista, acredita que o futuro é muito mais promissor para seus filhos do que foi para ela.
Quando se trata do porquê do negro não conseguir estar em níveis hierárquicos elevados, Ana crê que existe, sim, o não conseguir, mas que também há o se acomodar naquela posição de oprimido. Ela diz que conhece algumas pessoas que não estudam porque "é difícil", e começam a desistir mesmo. “Ser presidente de uma empresa? Todo dia o cara vai se f**** porque vai ter empecilho todo dia. No teatro o pessoal já é mais aberto etc, agora vai na Unilever. Aí que preguiça, né? Eu não quis porque não queria isso pra mim, mas aí que preguiça: você entra como estagiária, tem que ser dez vezes a mais que os outros... Só que negro no Brasil o que é? É pobre, e pobre não fala inglês. Eu mesma não falo, meu inglês é ruim, tenho quarenta e sete anos e não tinha grana pra estudar, na minha escola não tinha porque era pública e mal tinha aula. E eu também não fui estudar porque sou preguiçosa, eu assumo. Podia ter estudado sozinha, mas não estudei. Isso tudo, a sua formação, já não é a mesma (que uma pessoa branca), então a competição é difícil mesmo porque você tem menos cultura. Tem mesmo, o negro tem menos cultura no Brasil: não entra na galeria porque tem medo, tem vergonha, porque a mulher vai achar que é "trombadinha"... Então acho que o negro não consegue crescer porque é caro. MBA é caro, pós graduação é caro, não é todo mundo que entra na USP. Eu sou a favor das cotas, gostaria que não precisasse ter, mas sou a favor. Eu teria entrado na USP, mas fiquei na lista de espera e não entrei, tive que pagar a faculdade. Isso tudo influencia.”

Ela continua, dizendo que mesmo depois ainda vai ter muita gente afim de te tirar do cargo que te custou a conseguir, e acredita que seja porque muita gente ainda não admite ser comandado por um negro.“Eles acham que a gente é menos. Menos inteligente, menos capaz... Acreditam que o negro tem força física, que serve pra procriar ou pra carregar coisa, então quando tem um chefe negro o que a equipe faz? Ela "mina" aquele cara até ele cair. Porque não consegue, é uma herança cultural que tá ali inconsciente ou conscientemente.”

Para Ana, o brasileiro não tem discernimento para discutir se o âmbito é racial porque os negros vieram “daqui ou dali”, e diz que, no Brasil, é tudo muito estético também. “Se você for bonita, magrinha etc... É preta, mas for bonitinha, você ainda consegue mais pra frente. Se for feia, não. Se você for "menos preta", você consegue. Se você for "muito preta", não. Entendeu? É uma questão bem estética, brasileiro é preconceituoso no visual. Se você for aquela preta radical que se identifica com o movimento, usa dread etc, não vai conseguir.”

Apesar e não achar o presente tão animador, Ana têm um pensamento positivo quanto ao futuro para seus filhos, Thomas e Alex, ao relatar que eles já não sofrem racismo na escola como ela sofreu e que faz um trabalho com eles que considera melhor do que sua mãe fez com ela.

“Eles também não se viam como negros. O mais velho tem a pele mais clara que a minha, e o mais novo tem a minha cor. E o mais velho, por querer ser igual o pai, se achava branco... Agora a gente tá em um processo de entender quem eles são, porque brancos eles não são, no mínimo, são misturados. Só que aí na escola veio a coisa dá escravidão e eles entenderam que eles eram pretos e que a coisa podia ficar bem ruim. Mas nessa aula tudo mudou, o mais velho, "pulou" pro lado de cá e achou melhor nos defender, do jeito dele, é claro. Mas achei legal, ele podia ter pulado pro lado de lá, mas resolveu vir pra esse. E o mais novo já tá entendendo quem ele é no mundo. E eu também falo pra eles que se a polícia parar eles, não é pra correr; que pra qualquer lugar que forem é pra se arrumar, sabe? Eu falo esse tipo de coisa e eles são pequenos (o mais velho tem doze e o mais novo dez anos), mas a polícia tá aí matando menino pequeno todo dia na rua.” – ela termina dando de ombros, como se aquilo não fosse o que ela desejasse, mas acabou se tornando necessário. Quanto ao lado profissional, ela cita que o mercado se ampliou muito desde que ela se inseriu nele, e que seus filhos tem, hoje em dia, referência de negros que estão, por exemplo, em novelas, de pessoas que tão na revista, artistas e até alguns políticos. “O Obama, bem ou mal, é um exemplo.” – diz Ana - “Agora meu filho viu um presidente dos estados unidos negro. O Obama pode ser o que for, mas ele tava fazendo a função social dele que era estar ali. Nunca a gente imaginou que isso iria acontecer, e eu tô viva pra ver. Acho que vai ser melhor. Não sei se vai ser como eu gostaria, mas vai ser melhor. Até porque hoje em dia eles estão com mais acesso a cultura, os meninos aqui tem acesso a internet, bem ou mal. Agora é pegar isso tudo e usar a seu favor. Os meninos lêem tudo o que eles quiserem, na minha época não, a gente lia o que chegava nas nossas mãos.

"É isso que precisa: acesso a cultura. Quanto mais você lê, mas você se apropria de você. Quanto mais você estuda ou mais vai a exposição... Quanto mais informações você tem, quanto mais coisa você olhar...Mais empoderada você fica. Vai ficando guardado, eles são pequenos, mas já tem discurso. Eles sabem que o Temer é golpista, que o Alckmin é um filho da p***, que a polícia também é. A gente foi numa passeata outro dia e quando a polícia chegou eles falaram 'mamãe, tá na hora de ir embora.' eles já sabiam que a polícia iam bater na gente primeiro. Então eles já sabem articular, já sabem o que tão fazendo, então no trabalho dele ele vai ser melhor, mais ágil. Não basta só olhar nos livros né, tem que ver e traduzir, tem que buscar dentro e fora."

(Texto feito por Isadora Clerico)

Nenhum comentário:

Postar um comentário