Páginas

quarta-feira, 22 de março de 2017

DO PASSADO AO FUTURO: A POSIÇÃO DO NEGRO NO MERCADO DE TRABALHO

Pesquisa realizada pelo Departamento Intersindical de estatística e Estudos Socioeconomicos (o DIEESE) apontou um índice de desemprego que chega a ser até oito vezes maior para a população negra em relação à branca, principalmente entre as mulheres.

Ana Vasconcellos, mulher negra de quarenta e sete anos, é formada em jornalismo pela FIAM/FAAM, e atua como coordenadora de comunicação e captação de recursos do Projeto Quixote (ONG) há um ano e meio. Ela aceitou o convite para debater a posição do negro no espaço de trabalho – assim como na sociedade em si – nos contou experiências pessoais e o que espera para o futuro de seus filhos.

Na foto: entrevistada (Ana) à esquerda e entrevistadora (Isadora) à direita no Projeto Quixote.
Sua carreira começou pouco antes de terminar a faculdade, quando foi contratada para ser recepcionista em uma produtora.

“Ah, eu consegui esse emprego porque eu era amiga de um dos donos” - Ana faz questão de enfatizar – “Porque pra conseguir emprego era muito difícil: você fazia processo seletivo, tinham dez meninas e se você era preta já sabia que não ia passar. Então você fazia toda a prova, todo o processo seletivo pra chegar na hora e não te escolherem.”

Após ficar apenas um mês e meio na recepção, foi convidada a ser assistente da coordenadora de produção onde aprendeu na prática como as coisas funcionavam. Passados mais dois anos começou a atuar como produtora e, logo após, coordenadora de produção. Ao todo, Ana conta que passou cerca de oito anos dentro desta produtora, alternando entre projetos pequenos e outros maiores. “E o último grande foi o Telecurso, pra Fundação Marinho (Globo)... Acho que fiquei quatro anos e meio só nesse projeto. E nisso eu já era assistente de direção geral e cuidava de toda a entrada das gravações e todas as saídas também, era muito legal. Deu bastante trabalho, mas conheci bastante gente bacana também.”- conta.

Ana conta que todos os trabalhos que fez tiveram algum impacto social. “O Telecurso dava aula e, depois que sai dessa produtora fui pra outra que viajei o Brasil inteiro fazendo projetos culturais que também eram de televisão, que ensinava professoras e tal... Todos ligados ao MEC ou ao ministério da cultura. Todos assim, mas nenhuma tinha nenhum contato tão direto com a cultura que nem aqui no (Projeto) Quixote."

Ao retornar para São Paulo, ela conta que participou da exposição “Brasil 500 Anos” realizada no Parque Ibirapuera, sobre o descobrimento do país, então conta com excitação seu ponto de vista sobre estes trabalhos:

"É muito legal porque você faz a arte aqui e leva pra outra cidade, as pessoas vão visitando, as escolas levam os alunos... E por mais distante que seja a arte pra um aluno de colégio público, por exemplo, ele passou por aquela tela e alguma coisa dela ficou. A arte desperta algo, mesmo que não seja ali naquele momento, quando ele crescer aquele negócio que ele viu lá atrás na minha exposição vai interferir na vida dele. Então trabalhar com arte é legal por causa disso.”E ainda relata que as exposições mais importantes que realizou foram dos desenhos quilométricos de Keith Haring e com as polaróides do Andy Warhol.

Ao ser questionada se ela ainda encontra dificuldades em ser ouvida, principalmente por questões raciais, Ana é categórica ao dizer que não, e explica que acabou desenhando uma carreira que chama de 'comer pelas bordas'. – “Primeiro porque, pelo meu perfil mesmo, não queria trabalhar em uma grande corporação onde você encontra mais esse empecilho. Quando eu tentei, no começo, eles nem me colocaram. Ou me assediavam, nas entrevistas... Existe uma ligação direta entre ser mulher negra e ser assediada. Mas como eu sempre trabalhei com cultura, arte, as pessoas eram mais esclarecidas então eu sempre fui ouvida. Também porque você vai criando um espaço, e quando você é mulher negra, tem que aprender a lidar com coisas e se colocar de outra maneira desde pequena. Desde criancinha você tem que ser descolada, estar antenada... Você tem que ser a mais simpática, não pode errar... Ou então tem que achar seu potencial e características e se destacar. Ou você fica num canto, mas eu nunca quis isso. Mas você tem que criar uma bagagem desde pequena, porque na escola você já se f***, ela já te detona no seu primeiro dia. Eu fui detonada no meu primeiro dia, com 5 anos eu já fui massacrada. A sorte é que eu cheguei em casa e minha mãe me disse 'você é preta mesmo, não precisa chorar.', porque até então eu nem tinha me ligado nisso." Relata Ana. " E aí ela (a mãe de Ana) explicou que eu não sou feia, nem suja, nem nada disso... E, não sei como, eu consegui compreender aquilo e, no dia seguinte voltei pra escola com uma outra visão e a partir desse dia já enxerguei tudo de outra maneira. Aí quando você fala que mulher negra tem que estar preparada pra mais coisa, quem é branco fala que a gente é racista ou que tem mania de perseguição porque a gente só fala disso. Mas eu falo disso porque eu sofro disso, vou falar do que? Quando eu tava na faculdade tinha colega que falava que quando foi pra França também sofreu por ser brasileira. Só que você tava lá na França, e eu não conseguia arruma emprego pra comer, precisava ajudar a minha mãe a sustentar minhas irmãs porque meu pai tinha morrido, e aí? E você não consegue sua independência porque você é preto e o cara não te dá um emprego. E ser preto ainda tem uma coisa assim: se você é gordo, ainda consegue emagrecer se se esforçar. Mas eu sou preta! Não dá pra tirar, nem quero, mas não dá. Se você usa óculos, opera. Mas agora, você é preta? Você é!"

Apesar de afirmar que é, sim, ouvida no seu meio de trabalho, Ana ressalta o outro lado de se estar no meio cultural: o elitismo.“ Quando eu vou em uma exposição de arte, numa abertura ou em algum evento de um patrocinador, eu sempre sou a única preta do lugar. Sempre. Então eu falo que uma das minhas funções sociais é estar nesses lugares. Aí eu entro e as pessoas não sabem o que eu sou direito. Ou eu sou artista, porque né, pra estar ali... Ou sou a garçonete ou sou a babá de alguém. Não digo que sofro por isso, mas eu sinto."

Quando se trata do porquê do negro não conseguir estar em níveis hierárquicos elevados, Ana crê que existe, sim, o não conseguir, mas que também há o se acomodar naquela posição de oprimido. Ela diz que conhece algumas pessoas que não estudam porque "é difícil", e começam a desistir mesmo.


Ana Vasconcellos, jornalista, acredita que o futuro é muito mais promissor para seus filhos do que foi para ela.
Quando se trata do porquê do negro não conseguir estar em níveis hierárquicos elevados, Ana crê que existe, sim, o não conseguir, mas que também há o se acomodar naquela posição de oprimido. Ela diz que conhece algumas pessoas que não estudam porque "é difícil", e começam a desistir mesmo. “Ser presidente de uma empresa? Todo dia o cara vai se f**** porque vai ter empecilho todo dia. No teatro o pessoal já é mais aberto etc, agora vai na Unilever. Aí que preguiça, né? Eu não quis porque não queria isso pra mim, mas aí que preguiça: você entra como estagiária, tem que ser dez vezes a mais que os outros... Só que negro no Brasil o que é? É pobre, e pobre não fala inglês. Eu mesma não falo, meu inglês é ruim, tenho quarenta e sete anos e não tinha grana pra estudar, na minha escola não tinha porque era pública e mal tinha aula. E eu também não fui estudar porque sou preguiçosa, eu assumo. Podia ter estudado sozinha, mas não estudei. Isso tudo, a sua formação, já não é a mesma (que uma pessoa branca), então a competição é difícil mesmo porque você tem menos cultura. Tem mesmo, o negro tem menos cultura no Brasil: não entra na galeria porque tem medo, tem vergonha, porque a mulher vai achar que é "trombadinha"... Então acho que o negro não consegue crescer porque é caro. MBA é caro, pós graduação é caro, não é todo mundo que entra na USP. Eu sou a favor das cotas, gostaria que não precisasse ter, mas sou a favor. Eu teria entrado na USP, mas fiquei na lista de espera e não entrei, tive que pagar a faculdade. Isso tudo influencia.”

Ela continua, dizendo que mesmo depois ainda vai ter muita gente afim de te tirar do cargo que te custou a conseguir, e acredita que seja porque muita gente ainda não admite ser comandado por um negro.“Eles acham que a gente é menos. Menos inteligente, menos capaz... Acreditam que o negro tem força física, que serve pra procriar ou pra carregar coisa, então quando tem um chefe negro o que a equipe faz? Ela "mina" aquele cara até ele cair. Porque não consegue, é uma herança cultural que tá ali inconsciente ou conscientemente.”

Para Ana, o brasileiro não tem discernimento para discutir se o âmbito é racial porque os negros vieram “daqui ou dali”, e diz que, no Brasil, é tudo muito estético também. “Se você for bonita, magrinha etc... É preta, mas for bonitinha, você ainda consegue mais pra frente. Se for feia, não. Se você for "menos preta", você consegue. Se você for "muito preta", não. Entendeu? É uma questão bem estética, brasileiro é preconceituoso no visual. Se você for aquela preta radical que se identifica com o movimento, usa dread etc, não vai conseguir.”

Apesar e não achar o presente tão animador, Ana têm um pensamento positivo quanto ao futuro para seus filhos, Thomas e Alex, ao relatar que eles já não sofrem racismo na escola como ela sofreu e que faz um trabalho com eles que considera melhor do que sua mãe fez com ela.

“Eles também não se viam como negros. O mais velho tem a pele mais clara que a minha, e o mais novo tem a minha cor. E o mais velho, por querer ser igual o pai, se achava branco... Agora a gente tá em um processo de entender quem eles são, porque brancos eles não são, no mínimo, são misturados. Só que aí na escola veio a coisa dá escravidão e eles entenderam que eles eram pretos e que a coisa podia ficar bem ruim. Mas nessa aula tudo mudou, o mais velho, "pulou" pro lado de cá e achou melhor nos defender, do jeito dele, é claro. Mas achei legal, ele podia ter pulado pro lado de lá, mas resolveu vir pra esse. E o mais novo já tá entendendo quem ele é no mundo. E eu também falo pra eles que se a polícia parar eles, não é pra correr; que pra qualquer lugar que forem é pra se arrumar, sabe? Eu falo esse tipo de coisa e eles são pequenos (o mais velho tem doze e o mais novo dez anos), mas a polícia tá aí matando menino pequeno todo dia na rua.” – ela termina dando de ombros, como se aquilo não fosse o que ela desejasse, mas acabou se tornando necessário. Quanto ao lado profissional, ela cita que o mercado se ampliou muito desde que ela se inseriu nele, e que seus filhos tem, hoje em dia, referência de negros que estão, por exemplo, em novelas, de pessoas que tão na revista, artistas e até alguns políticos. “O Obama, bem ou mal, é um exemplo.” – diz Ana - “Agora meu filho viu um presidente dos estados unidos negro. O Obama pode ser o que for, mas ele tava fazendo a função social dele que era estar ali. Nunca a gente imaginou que isso iria acontecer, e eu tô viva pra ver. Acho que vai ser melhor. Não sei se vai ser como eu gostaria, mas vai ser melhor. Até porque hoje em dia eles estão com mais acesso a cultura, os meninos aqui tem acesso a internet, bem ou mal. Agora é pegar isso tudo e usar a seu favor. Os meninos lêem tudo o que eles quiserem, na minha época não, a gente lia o que chegava nas nossas mãos.

"É isso que precisa: acesso a cultura. Quanto mais você lê, mas você se apropria de você. Quanto mais você estuda ou mais vai a exposição... Quanto mais informações você tem, quanto mais coisa você olhar...Mais empoderada você fica. Vai ficando guardado, eles são pequenos, mas já tem discurso. Eles sabem que o Temer é golpista, que o Alckmin é um filho da p***, que a polícia também é. A gente foi numa passeata outro dia e quando a polícia chegou eles falaram 'mamãe, tá na hora de ir embora.' eles já sabiam que a polícia iam bater na gente primeiro. Então eles já sabem articular, já sabem o que tão fazendo, então no trabalho dele ele vai ser melhor, mais ágil. Não basta só olhar nos livros né, tem que ver e traduzir, tem que buscar dentro e fora."

(Texto feito por Isadora Clerico)

terça-feira, 21 de março de 2017

APOSENTADORIA: UM DIREITO CADA VEZ MAIS DIFÍCIL DE OBTER

A vida do trabalhador no Brasil é um tanto quanto contraditória. De um lado, a aposentadoria é considerada um direito seu, uma conquista depois de uma vida de trabalho, por outro lado, o aposentado sofre muitos tipos de preconceitos por ser considerado um inválido, e portanto um inútil para o trabalho.

Aos 55 anos, Maria Luzia da Conceição Silva passa por um dos maiores desafios de sua vida, se aposentar. Assim como muitos de brasileiros, a ex auxiliar de valvulado e guardete enfrenta um processo árduo envolvendo sua antiga empresa, uma grande fabricante de plástico.
Maria Luzia (Arquivo Pessoal)
Mãe de quatro filhos, Maria Luzia foi demitida faltando apenas dois anos para se aposentar. A empresa em que trabalhava decidiu demiti-la sem nenhum tipo de justificativa ou aviso prévio, Luzia, como prefere ser chamada, decidiu procurar saber sobre seus direitos e foi informada que no Brasil existem algumas normas coletivas que detém o que se chamamos de estabilidade pré-aposentadoria. Ou seja, um período fixado (de 12 à 24 meses anteriores à aposentadoria) em que nenhum trabalhador registrado em carteira pode ser dispensado sem justa causa. Sabendo de tudo isso, decidiu procurar seus direitos e hoje, seu processo encontra-se em tramitação na justiça do Estado de São Paulo e Luzia está muito confiante em relação ao resultado: “Espero que o resultado seja positivo, creio que não recebi os meus direitos adequadamente! Preciso de uma resposta urgente quanto a tudo isso.” E Luzia está certa, entrar na justiça nestes casos é o mais indicado segundo especialistas em direito trabalhista. Por burlar essa regra, o empregador tem o dever de gerar uma indenização pelo período de estabilidade.

A ex guardete ainda diz que por ter sofrido muito preconceito na empresa sua auto estima segue abaixo do normal: “Como mulher enfrentei muito preconceito por parte de homens e também por parte de todos pois fui promovida por não conseguir mais exercer minha antiga profissão”. Emocionada e nervosa, Luzia conta que sofre até hoje com problemas que a profissão de auxiliar de valvulado a causou, dentre eles, tendinite e desgaste total da cartilagem.
Luzia faz parte da estatística de milhões de brasileiros que lutam para adquirir o direito que lhe foi prometido desde o seu primeiro dia de trabalho.



domingo, 19 de março de 2017

MUDANÇA DE SEXUALIDADE CRESCE CADA VEZ MAIS COMO A DESIGUALDADE

Mariana Herculino, conta sua experiência de vida no trabalho como transgênero com 27 anos, hoje trabalha em uma empresa de tecnologia na área de Atendimento ao cliente. Conta que seu maior desafio foi se aceitar internamente.

O mercado para um transgênero tem um índice muito baixo segundo a Carta Capital a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro (Triângulo Trans), apenas 5% das travestis e transexuais de Uberlândia estão no mercado de trabalho dito formal. As demais, 95%, estão na prostituição.

Perguntada se já presenciou a rejeição no mercado de trabalho, a mesma conta: "Diretamente, não!" Mas que em entrevista apesar de estar qualificado para o cargo a pessoa simplesmente te olha e faz questão de não prestar atenção na sua presença. Conta, que há uma falta de respeito ao chamá-lo de Mariana no seu trabalho, mas devido a sua transação não chega ser um ato homofóbico e sim falta de conhecimento. Acredita que no final da sua transação alcançara seu direito de ser chamado de Rodrigo, explica que o que falta nas pessoas é conhecer, aceitar e acreditar que uma pessoa transgênera tem a mesma capacidade de uma pessoa Heterossexual.

Atualmente devido a muita restrição, transgêneros se destacam por inúmeros fatores por cada vez mais se igualar, pela sua determinação e conquistas. Assim como Mariana, hoje Rodrigo, apesar de preconceitos e restrições devido a sua escolha de gênero é feliz, buscou mostrar o seu trabalho e que sua opção por mudança de gênero não muda em nada e sim o faz forte. Assim como Rodrigo, possui vários outros trans na busca de igualdade. 

Rodrigo deixa uma mensagem “Não temos que ter medo de ser transgênero, temos que ter medo da falta de conhecimento... Não adianta se esconder em uma capa de transexual e usar isso como uma desculpa, uma deficiência e sim se adequar ao que você quer fazer.”

sábado, 18 de março de 2017

MULHER SOFRE PRESSÃO PSICOLÓGICA EM AMBIENTE DE TRABALHO

O papel da mulher no mercado de trabalho hoje ainda é subjugado, acham que elas não dão conta de aguentar o dia a dia da empresa, que sabem menos que os homens da equipe e por isso, recebem menos que eles. Independente da mulher ter graduação ou não, ela ganha menos do que um homem que esteja no mesmo cargo, uma trabalhadora com salário médio recebe 71,3% do rendimento do homem.

De acordo com o IBGE de 2010 apenas 40% da população feminina trabalha com carteira assinada, enquanto essa proporção para os homens ficou em 50% e no topo do ranking de desemprego, são 1 milhão de mulheres desempregadas enquanto para os homens na mesma situação, apenas 779 mil.

Gráfico: CAU/BR 2013

A jovem de 26 anos, Daiane Zito, que se inseriu no mercado de trabalho aos 14, sofreu com a pressão e desigualdade em uma empresa que majoritariamente era um ambiente masculino.

 Entrou no mercado de trabalho com a ajuda do ESPRO, onde ia todos os dias depois da sua aula ter o curso de técnicas administrativas com duração de 6 meses, após esse tempo eles encaminhavam os alunos para algumas empresas para fazer testes como menor aprendiz. Ela ficou 9 meses na empresa Câmara de Valores Mobiliários e quando chegou no último ano do ensino médio, resolveu apenas voltar a estudar. Em setembro de 2010 o ESPRO entrou novamente em contato com ela e foi nessa entrevista que tudo se iniciou, aos 17 anos na multinacional.

Foto: Arquivo pessoal Daiane.

Daiane entrou na empresa junto com mais 3 meninas e elas tinham uma chefe mulher que trabalhava lá há 30 anos. “Como era ‘engraçado’ ter mulheres tão competentes e estar como secretária, sendo que eram mais competentes que muitos homens” ela foi percebendo isso conforme o tempo e comenta que isso foi bom para perceber a importância da mulher no mercado de trabalho.

Enquanto era menor aprendiz as pessoas da empresa tinham um cuidado com elas; “tínhamos conversas esporádicas para saber se tinha sofrido algum assédio, algum problema” e tudo isso para ela, pareceu ser um ensaio falso do que realmente era o trabalho.

Quando mudou de setor, seu chefe virou um homem 3 vezes mais velho que ela, que a chamava de “menina” sempre que podia para desvalorizar o seu trabalho. Assim que descobriu sobre a diferença de salário, por erro do RH, recebeu um e-mail por engano com os salários dos homens e viu o quão gigante era a diferença entre seus salários.

Com isso sua autoestima caiu, ficou pensando o que estava fazendo de errado no trabalho e desanimou com tudo que acontecia em sua volta. Isso aconteceu na mesma época que o fim do seu namoro, então todas as pessoas do ambiente de trabalho pensavam que a tristeza dela era por causa disso, mas na verdade eram acúmulos do que passava lá.

Daiane adquiriu transtornos de ansiedade, passou por diversas humilhações na empresa, o que acarretou a sua saída de lá. “Quando eu contei para o Milton, o diretor, sobre os transtornos” isso a ajudou a ir procurar ajuda. É preciso muitas Daianes em cada mulher para superar esses estereótipos e seguir em frente.

sexta-feira, 17 de março de 2017

UMA SIMPLES VENDEDORA DE CACHORRO QUENTE

Monica - Foto por: Nayara em Osasco.

Dona Monica, tem 45 anos, é mãe e avó, mora em Osasco. A mesma é deficiente física desde os 4 anos de idade devido a um atropelamento. Monica teve uma vida sofrida, morava em uma área livre numa casa de 3 cômodos e a dividia com sua mãe e seus 7 irmãos, até o acidente que mudaria a sua vida, pois sua própria mãe á abandonara, e então ela tirou forças de ode não tinha e foi a luta. Com 16 anos conseguiu emprego em uma empresa de telefonia, mais ainda não recebia o bastante, devido ao preconceito por ela ser cadeirante.

Hoje Dona Monica, mulher, mãe, avó e guerreira tem a sua própria casa, seu filho já é formado, tem a sua própria família, tudo graças a oportunidade que Monica teve para se tornar vendedora de Cachorro quente no calçadão de Osasco, cidade onde vive.

Essa é a realidade de muitos deficientes físicos que sofrem preconceitos e não tem oportunidades de emprego. No Brasil, 245 da população alega ter algum tipo de deficiência, e desses 23,6% estão empregados, segundo o IBGE. Segundo a Lei nº 8.213, de julho de 1991, também conhecida como Lei de Cotas, que obriga o preenchimento de 2% a 5% das vagas do quadro de funcionários com reabilitados ou com deficiência física.

Mesmo a Lei existindo desde 1991 só foi regulamentada em 2000, e obrigatória a partir do ano de 2004. Porém ainda hoje algumas empresas existe um certo “preconceito” quando se trada de deficientes físicos, devido a falta de acessibilidade em determinados locais, pois seria mais gasto para a empresa acessibilizar os prédios com elevadores e rampas do que pagar multas.

Em entrevista Dona Monica relatou que no seu primeiro emprego pagava para trabalhar, pois não recebia como as pessoas sem deficiência física.

De acordo com Carolina Ignarra, consultora de inclusão em São Paulo, os bancos são, hoje, os mais bem preparados em relação ao tema, já que foram os primeiros exigidos pela lei de cotas. A consultora de inclusão, que é cadeirante, destaca que grande parte deles já possui o quadro de funcionários com deficiência preenchido, contando com milhares de empregos.

No entanto, há muito que ser feito pela garantia dos direitos desse público. Afinal, contratar uma pessoa com deficiência não deve ser apenas algo quantitativo, mas também qualitativo. Ou seja, é preciso o preparo de todos para a convivência, assim como a garantia de igualdade de condições, cobrança, reconhecimento e tratamento. Tudo isso é citado pela Normativa 98, que faz a fiscalização pela qualidade da contratação (e não só pelos números).

“Há uma preocupação se essas pessoas estão sendo, realmente, aproveitadas e reconhecidas como qualquer outro trabalhador dentro da empresa. Algo muito pouco falado e conhecido é a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que também reforça a qualidade da inclusão e a ampliação de todas as deficiências, que ainda é restrito”, explica Carolina.

quinta-feira, 16 de março de 2017

IMIGRANTES E OPORTUNIDADES DE TRABALHO

A cidade de São Paulo é vista por muitos imigrantes de países mais pobres da América latina como um “berço” de oportunidades. Assim é o caso de Emerson Lolli, 39 anos, peruano e residente no Brasil há 12 anos.

Sua ex esposa ainda grávida decidiu ir embora do Peru com o desejo de cursar Farmácia em uma faculdade de São Paulo. Ao chegar no Brasil uma nova etapa se iniciou em sua vida, o nascimento de Inara sua filha que hoje tem 12 anos.

Em sua cadeira de trabalho, com o olhar distante ele se recorda do passado e conta que seu primeiro emprego recém-chegado na capital paulista foi dar aulas particulares de espanhol. Para divulgar suas aulas colava cartazes com número de telefone em postes da cidade.

Posteriormente em um anúncio de jornal viu a vaga de professor em uma escola de idiomas e com isso lecionou por 6 meses. Uma de suas maiores dificuldades no início foi lidar com o idioma, ele ri e diz: ”Eu só sabia falar Bom dia, Boa tarde, Boa noite e tudo bem o resto eu aprendi com o tempo aqui no Brasil”.

 Após os seis meses em sala de aula encontrou uma oportunidade de call center receptivo da Argentina o que considerou uma facilidade devido ao idioma, trabalhou sempre em dois empregos para sustentar a casa. Se recorda da rotina puxada quando trabalhava das 22hr as 6hr da manhã em uma empresa de telemarketing e depois ia pra casa ver a filha e descansar, e das 15hr às 21hr iniciava uma nova jornada de trabalho agora como monitor de telemarketing.

                                                                                                                                           Foto: Arquivo pessoal Emerson Lolli 

Para muitos peruanos que migram para a metrópole a realidade é bem diferente, muitos deles encontram-se como camelôs no centro da cidade e até mesmo já foram encontrados em condições precárias de trabalho.

Emerson considera-se um imigrante de sorte pois conseguiu boas oportunidades em sua inserção no mercado de trabalho brasileiro, ter conseguido visto de permanência o ajudou a trabalhar registrado o que difere de muitos que não possuem essa documentação e acabam sem carteira assinada. Mas conta que não passou despercebido pelo preconceito, pois já ouviu de uma mulher: ”Você está roubando emprego dos brasileiros”

Em sua concepção hoje em dia as coisas estão mais difíceis, pois conta que há 12 anos atrás ter um outro idioma era algo raro e hoje com grande acesso à educação, a concorrência aumentou.

Atualmente é supervisor de uma empresa de Call center liderando 35 pessoas, neste cargo está a três anos e devido a carga horária possui somente este emprego. Em sua rotina assume os papéis de: chefe, dono de casa, namorado e “paizão”. Pois lava, passa, cozinha e leva sua filha todos os dias a escola.

Questionado se voltaria a morar no Peru diz que só o tempo dirá, mas que não pretende por agora, pelas condições do Brasil serem melhores com relação a trabalho pois no Peru não se tem direito a benefícios como: Vale alimentação e Vale transporte, e o salário deve ser divido entre as despesas. Ele conta que encontrou estabilidade e se sente feliz com o caminho que conquistou.



quarta-feira, 15 de março de 2017

JOVENS SÃO OS MAIS ATINGIDOS COM O DESEMPREGO

  Segundo um estudo feito pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em dezembro do último ano, as condições do mercado de trabalho continuaram a diminuir no terceiro trimestre de 2016. A taxa de desemprego alcançou 11,8%, quase três pontos percentuais acima do mesmo período do ano de 2015. Os jovens entre 14 e 24 anos de idade foram os mais atingidos pela falta de emprego, cuja taxa chegou a 27,7%. Outro setor populacional afetado pela crise trabalhista são os trabalhadores com ensino médio incompleto(21,45%).  

José Ronaldo de Souza Júnior, coordenador do Grupo de Conjuntura do IPEA, analisa quem é mais afetado com o desemprego. 

  Hoje, o número de desempragados chega a 12 milhões e a procura por emprego não cessa. O PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) nos informou que o número de jovens à procura de emprego aumentou 60% nos últimos 3 meses. Nos PATs são oferecidos serviços como Intermediação de Mão de Obra, Habilitação ao Seguro-Desemprego e Emissão de Carteira de Trabalho e Previdência Social – CTPS.

  Em um dos PATs, o Guaianazes, o adolescente desempregado Denner Rodrigues, de 19 anos, concedeu uma entrevista ao Mídia Jovem e nos contou como a falta de emprego o prejudicou: "Estou há mais de seis meses procurando emprego. Faço processos seletivos em várias empresas de diversos setores e nada.", diz.  

  Demitido do emprego de Assistente de Marketing em setembro de 2016, o jovem trancou a faculdade de Gestão em Tecnologia da Informação porque não conseguia mais arcar com os custos da faculdade. "A crise econômica do país afetou a todos e minha família não ficou de fora. Então, tive que parar de estudar pois meus pais não têm mais condições de continuar pagando meus estudos. Por isso, tranquei meu curso até eu conseguir um trabalho", ele argumenta. 


Denner Rodrigues, 19 anos, desempregado. 

  Com a falta de carteira assinada, o garoto atua no trabalho autônomo nos fins de semana como feirante de manhã e garçom à noite. uma maneira que encontrei para sobreviver em meio essa crise. O dinheiro que ganho nos fins de semana me ajuda na procura de um novo emprego e eu posso colaborar com as despesas de casa", explica. 

  Uma grande quantidade de jovens encontram-se na mesma situação de Denner. A procura e a espera por um emprego aumenta a cada dia. O garoto comenta como ele enxerga a dificuldade dos jovens em conseguir uma vaga: "A falta de experiência não me permite conseguir o emprego. E o fato de eu não ter emprego, não  possibilita adiquirir experiência necessária para preencher a vaga. 'Um funcionário mais velho, pode ser mais produtivo e rentável para uma empresa', eles dizem(empresas). Assim, a gente sobra".

Área de espera do atendimento do Posto de Atendimento ao Trabalhador. 

 Em meio a tantos empecilhos, Denner continuará em busca de uma oportunidade de trabalho e tem esperança de conseguir brevemente. "Vou continuar tentando. Preciso voltar a estudar para aumentar meu conhecimento e conseguir uma oportunidade na minha área. Espero que essa situação se resolva logo".

terça-feira, 14 de março de 2017

CRIANÇA DÁ TRABALHO NUNCA O CONTRÁRIO

O trabalho infantil não é um fenômeno recente no Brasil. Ele vem ocorrendo desde o início da colonização do país, quando as crianças negras e indígenas foram introduzidas ao trabalho doméstico e em plantações familiares para ajudar no sustento da família.

Carlinhos faz parte da triste estatística divulgada pela PNAD 2012 em que, aproximadamente 3,5 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam trabalhando no país.


Filho de mãe solteira e criado em uma ocupação antiga da grande São Paulo o menino acanhado de apenas 10 anos, começa sua dura rotina diária juntamente quando a cidade acorda. Vendendo mercadorias ilegais dentro dos trens da metrópole, sem moradia fixa, Carlos Eduardo Barbosa é questionado do porquê de estar fazendo isso, ao invés de estar estudando e convivendo em um ambiente que somaria algo em sua vida, já que essa não seria sua responsabilidade, obtive a seguinte resposta: “Não sei, minha mãe sempre falou que eu deveria trabalhar, se não 'nois' passa fome.”

Questionei, então a naturalidade em que o menino lidava com a situação o que se torna um dos maiores fatores causadores desse problema histórico social, ele respondeu: “Eu sempre vim para os trens, desde meus 7 anos, minha mãe um dia me disse que “nois” precisava de dinheiro pra comer, é meio difícil moça porque eu queria ter uma vida normal sabe?” 

“Você aceitaria alguma ajuda especializada? Existem ONGs espalhadas pela cidade com crianças na mesma situação que você e que podem te ajudar”

“Já me procuraram, eu não quis ir, eu não posso. Preciso trabalhar moça”

Observa-se que existe em um só dialogo diversos problemas sociais envolvidos neste caso. Colocando como uma cadeia hereditária onde um problema é conseqüência de outro, vemos que tudo começa pela falta de estrutura familiar, onde também falta informação. Com isso, Carlos passa a herdar o mesmo ideal. Ausente de pai, de moradia, sem qualquer estrutura familiar ou educacional, ele encontra nas ruas seu subterfúgio ainda muito novo. Ele alega que sua mãe não teria condições de trabalhar, mas não entrou em detalhes.

Carlinhos carrega um mundo nas costas e muita coragem no coração. Seus olhos lacrimejavam e sua voz em formação relutava a se manter firme. Eu não acreditava na força e na luz que saira daquele menino, eu só sei que poderia sentir. Em um pouco menos de vinte minutos de conversa Carlos me deu uma lição histórica de vida, onde ali pude ver o quanto a desigualdade pode nos diferir ainda que possamos ter os mesmos direitos. É como se vivêssemos para cumprir todas as leis que nos é imposta e morrêssemos por conta delas.

Carlos. Foto por: Isabela em Terminal Grajaú

Foram criados órgãos, alteradas leis e implantados programas de geração de renda para as famílias, jornada escolar ampliada e bolsas para estudantes, numa tentativa de dar melhores condições para que essas crianças pudessem contribuir com seu papel na sociedade da sua melhor forma, sendo crianças. 

Um problema social que perdura por décadas mancha nossa historia e deixa rastros nas vidas de muitos jovens, nós podemos ajudar, não pense que esta causa foi perdida. Manteremos os sonhos sem deixar que os matem e teremos força e muita luz. Que haja sempre um Carlinhos em cada um de nós.