O trabalho infantil não é um fenômeno recente no Brasil. Ele vem ocorrendo desde o início da colonização do país, quando as crianças negras e indígenas foram introduzidas ao trabalho doméstico e em plantações familiares para ajudar no sustento da família.
Carlinhos faz parte da triste estatística divulgada pela PNAD 2012 em que, aproximadamente 3,5 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam trabalhando no país.
Filho de mãe solteira e criado em uma ocupação antiga da grande São Paulo o menino acanhado de apenas 10 anos, começa sua dura rotina diária juntamente quando a cidade acorda. Vendendo mercadorias ilegais dentro dos trens da metrópole, sem moradia fixa, Carlos Eduardo Barbosa é questionado do porquê de estar fazendo isso, ao invés de estar estudando e convivendo em um ambiente que somaria algo em sua vida, já que essa não seria sua responsabilidade, obtive a seguinte resposta: “Não sei, minha mãe sempre falou que eu deveria trabalhar, se não 'nois' passa fome.”
Questionei, então a naturalidade em que o menino lidava com a situação o que se torna um dos maiores fatores causadores desse problema histórico social, ele respondeu: “Eu sempre vim para os trens, desde meus 7 anos, minha mãe um dia me disse que “nois” precisava de dinheiro pra comer, é meio difícil moça porque eu queria ter uma vida normal sabe?”
“Você aceitaria alguma ajuda especializada? Existem ONGs espalhadas pela cidade com crianças na mesma situação que você e que podem te ajudar”
“Já me procuraram, eu não quis ir, eu não posso. Preciso trabalhar moça”
Observa-se que existe em um só dialogo diversos problemas sociais envolvidos neste caso. Colocando como uma cadeia hereditária onde um problema é conseqüência de outro, vemos que tudo começa pela falta de estrutura familiar, onde também falta informação. Com isso, Carlos passa a herdar o mesmo ideal. Ausente de pai, de moradia, sem qualquer estrutura familiar ou educacional, ele encontra nas ruas seu subterfúgio ainda muito novo. Ele alega que sua mãe não teria condições de trabalhar, mas não entrou em detalhes.
Carlinhos carrega um mundo nas costas e muita coragem no coração. Seus olhos lacrimejavam e sua voz em formação relutava a se manter firme. Eu não acreditava na força e na luz que saira daquele menino, eu só sei que poderia sentir. Em um pouco menos de vinte minutos de conversa Carlos me deu uma lição histórica de vida, onde ali pude ver o quanto a desigualdade pode nos diferir ainda que possamos ter os mesmos direitos. É como se vivêssemos para cumprir todas as leis que nos é imposta e morrêssemos por conta delas.
Carlos. Foto por: Isabela em Terminal Grajaú
Foram criados órgãos, alteradas leis e implantados programas de geração de renda para as famílias, jornada escolar ampliada e bolsas para estudantes, numa tentativa de dar melhores condições para que essas crianças pudessem contribuir com seu papel na sociedade da sua melhor forma, sendo crianças.
Um problema social que perdura por décadas mancha nossa historia e deixa rastros nas vidas de muitos jovens, nós podemos ajudar, não pense que esta causa foi perdida. Manteremos os sonhos sem deixar que os matem e teremos força e muita luz. Que haja sempre um Carlinhos em cada um de nós.

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