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terça-feira, 30 de maio de 2017

A importância de inserir autistas no mercado de trabalho

O Autista como trabalhador não tem tanto espaço e oportunidades, e são pessoas que são ótimas para trabalhos em equipe, pois são concentradas e  organizadas. Porém não são excelências para trabalhar sob pressão. O nível de exclusão social dos portadores de Autismo vem aumentando a cada ano, pois a fala de convívio e o preconceito da sociedade vem tomando conta. Isso faz com que o próprio portador da doença se exclua e se esconda do meio urbano.

Foto: Arquivo pessoal

Há casos em que o autismo é diagnosticado em pessoas apenas quando adultas.Por que em muitos casos a descoberta é tardia?
Quando crianças os pais notam um comportamento atípico, porém sentimentos como o medo e angustia vem à tona. Com os sinais e o impacto da desconfiança é comum os familiares passarem por um momento de negação. Há um luto devido à perda de uma criança idealizada. A descoberta em si nem sempre é tardia, mas o início do tratamento sim.

Autistas possuem diversas habilidades como: concentração,facilidade em lidar com tecnologia,artes e matemática. Por que em muitos casos as empresas não aproveitam estas habilidades?

A inserção social das deficiências de tipo intelectual são as que mais apresentam dificuldades na interação social, no trabalho em equipe e na autonomia, e é onde se enquadra o autista. Sem desenvolver suas capacidades, autonomia e interação social, sua inserção no mercado de trabalho fica praticamente impossível, pois eles precisam atender as exigências determinadas pelas empresas, essas que estão cada vez mais criteriosas. Os que conseguiram ingressar no mercado de trabalho, infelizmente, fazem parte de apenas uma minoria que conseguiu vencer o preconceito existente. Apesar da imposição da legislação, ainda existem os rótulos e preconceitos em relação as pessoas com alguma deficiência.

Por que os deficientes intelectuais ainda são minorias no mercado de trabalho comparado aos deficientes físicos?
A dificuldade manifestada pelos deficientes intelectuais em se inserir no mercado é indicador de uma realidade excludente. Isso é reflexo da fase escolar que apresenta barreiras de aprendizagem, onde precisa reestruturar o plano pedagógico para conseguir realmente a inclusão desejada no ensino regular. Já como deficientes físicos, como eles possuem a parte cognitiva preservada, reabilita-lo no ambiente de trabalho acaba sendo mais fácil para as empresas.

De acordo com a ONU estima-se que 80% dos adultos com autismo estão desempregados. Qual a razão da inclusão no mercado de trabalho ser tão baixa para este grupo?
Quando a formação do autista não acontece de forma adequada, sem desenvolver suas capacidades, autonomia e interação social, sua inserção no mercado de trabalho fica difícil. Se esta inclusão no ensino regular fosse feita de forma adequada, com estratégias e estruturas que atendessem a todos os envolvidos, o autista chegaria mais preparado para o mercado de trabalho, com suas habilidades e competências desenvolvidas, além de uma melhor interação social. Se em um ambiente organizacional o trabalho em equipe, os relacionamentos, e o clima organizacional estão comprometidos e se isso é um ponto estressante dentro de uma empresa, acaba comprometendo e muito na inclusão social do autista no ambiente de trabalho. Não é saudável para o autista ficar neste ambiente.

​Existe emprego certo para autista?
Não! Cada um tem sua potencialidade e seu gosto pessoal, então o autista vai ser bom naquilo que ele gosta e é fissurado. Para termos uma ideia da diversidade e possibilidades, temos o jogador Messi e o cientista Albert Einstein como exemplos.

​Contratar deficientes apenas para preencher cotas não é o fundamental, tendo em
vista que não basta ser quantitativo e sim qualitativo. No cenário que vivemos hoje no mercado de trabalho para deficientes você enxerga quantidade e qualidade?
Não! Eu enxergo apenas quantidade para preencher as cotas, infelizmente não são todas as empresas que priorizam a qualidade desses funcionários, essas empresas não enxergam que investir nesses colaboradores também pode trazer crescimento para a empresa

​Muitas empresas podem justificar que é difícil contratar deficientes devido a sua
também falta de capacitação profissional. Tendo em vista que a educação para deficientes intelectuais não possui estrutura adequada, a capacitação desses deficientes muitas vezes é sem êxito. Qual sua opinião sobre isso?
Realmente o ensino regular poderia ser melhor, e não apenas pregando uma inclusão que acaba não acontecendo. A atenção aos deficientes deveria ser maior e com mais recursos, só assim será possível romper os obstáculos futuros.

Como deve ser um ambiente de trabalho para pessoas com deficiências intelectuais?
Um ambiente acolhedor, sem estresse, um bom clima organizacional, sem preconceito, respeitando sempre as diferenças e valorizando as potencialidades de todos, independentemente de ter alguma deficiência ou não.

Mesmo lidando com diversos casos em consultórios, teve algum relato de preconceito ou situação que presenciou que mais te chamou atenção?
Sim, um exemplo muito claro relatado é o preconceito existente nas festinhas de aniversário infantil, onde os pais acabam comparando uma criança com a outra.

Qual a maior queixa que pais ou dos próprios autistas relatam à você?
A maior queixa é o próprio preconceito que existe entre os familiares para aceitar que aquela criança é autista, principalmente quando culpam os pais pela deficiência dizendo que foi por não darem atenção a criança, o que é um grande mito!

Como você enxerga as políticas públicas em relação ao Autismo?
São necessárias, pois garantem os direitos do autista e sua inclusão no ensino regular e no mercado de trabalho. Mas Apesar das leis que garantem este direito, ainda existe muito preconceito. É preciso romper paradigmas para que o caminho da inclusão não seja apenas para cumprir aquilo que a legislação impõe, mas sim como um espaço de conquista do qual os autistas consigam mostrar suas capacidades e potencialidades.

Por fim, qual o papel principal da psicologia em relação ao autismo?
É difícil dizer qual é o principal. É auxiliar no desenvolvimento de suas potencialidades, na autonomia,na interação social, na inclusão, na assistência aos familiares. As pessoas não estão preparadas para lidar como autismo, é diferente de uma gripe em que pouco tempo a pessoa está curada.

Entrevista: Alex Brandão

domingo, 28 de maio de 2017

A mãe de uma criança rara

Patrícia Carvalho, 41 anos é convidada a relatar a maior experiência de aprendizado de sua vida. Depois de perder um filho aos 36 anos por conta da sua idade, descobriu que o feto tinha um cromossomo alterado, a mesma causa que por ironia do destino é resultado da síndrome de down. Hoje é mãe de Benício, uma criança rara portadora da doença é o motivo pelo qual sua vida jamais fora a mesma. Da aceitação a superação diária Patrícia relata cada detalhe do seu dia a dia, nos proporcionando uma imersão incrível em seu passado e nos mostrando a realidade vivida em meio à dificuldades das crianças que possuem o cromossomo do amor.


Em uma tarde no Shopping Eldorado, em São Paulo, Patrícia de Carvalho, 41 anos, nos convida para um café. Sorridente senta-se a mesa preparada para uma imersão em seu passado.

Professora de Geografia, é casada com Leandro Varella com quem teve seu segundo filho Benício, portador de síndrome de down. Do primeiro filho as lembranças são apenas da gravidez. Aos 36 anos no terceiro mês de gestação perdeu o bebê. Em uma coletagem feita descobriu que o feto tinha um cromossomo alterado, a mesma causa de síndrome de Down. Foi informada pela médica que isto era normal em casos de primeira gravidez com 20% chance de perda e na maioria dos casos com cromossomo alterado.

Já com 38 anos novamente viu o sonho de ser mãe renascer. No exame mais importante, o morfológico da 13ª semana, o cromossomo do amor novamente bate a sua porta: teve o diagnóstico de suspeita da Síndrome de Down. Considerou ter feito a diferença ter descoberto previamente, quando em muitos casos as mães só descobrem no nascimento. Ela relembra a reação do médico ao dar a notícia: “O médico chegou super animado, brincou e tudo. E,de repente, dessa animação toda,ele ficou mudo. E eu comecei a ficar nervosa,porque me lembrou da primeira vez que tinha acontecido isso. E me deu um branco, porque quando eu fico nervosa me dá um branco, não conseguia pensar em nada. Aí eu olhei pro meu marido e a fisionomia dele já tinha mudado,estava pesada.” {Patrícia se emociona e pede desculpas}.

O sorriso que nos recepcionou dá lugar às lágrimas. O guardanapo vira um lenço umedecido, e a cafeína do café desperta suas lembranças do passado. No exame foi constatado que havia 90% de alteração no feto e o mais comum era de ser Síndrome de Down.

Ao relatar a reação após a notícia diz que não pensava em nada junto ao marido, sua sensação era de levitação, de não sentir os pés no chão. Um sentimento de estranhamento tomou conta do casal.

Mais uma vez emocionada diz: ”Porque quando você espera um filho você pensa no melhor, né? Pensa que vai ser médico, pensa que vai ser um grande advogado. De repente, não vai ser nada disso”. Ironia do destino ou genética, Benício é o quarto de sua família com síndrome de Down.

Depois da notícia no consultório o primeiro lugar em que resolveu ir foi justamente neste mesmo local em que nos conta sua história, no Shopping Eldorado. Ainda anestesiada pelas emoções resolveu trocar um sapato que havia comprado. Lembra-se que ao andar pelos corredores do shopping não conseguir ver ninguém, e depois da troca ao sair da loja começou a chorar.

Por um período viveu dias de luto com o esposo, o silêncio reinava em sua casa. “Parecia que a gente estava morto. Ficamos jogados no sofá” diz. Com a ajuda de um casal de amigos, aos poucos a rotina voltou ao normal.

Auxiliada por uma médica teve o amparo que precisava na época, e conta ter uma admiração muito grande pela doutora que cuidou de seu primeiro caso de síndrome de down.

Além disso, contou com apoio psicológico e foi indicada por uma amiga chamada Simone a conhecer uma ONG com crianças raras, pois é assim que gosta de definir os pequenos com o cromossomo do amor, e não adere ao termo “crianças especiais” já que explica que todas elas são especiais.

Seu maior pavor era sobre a educação do filho, em razão de ser uma professora exigente e ver que as escolas não estão preparadas. Por conta da deficiência do filho optou por não ter outro, para dedicar-se ao máximo a Beni, apelido dado à criança.

Beni é o único com síndrome de down na escola em que estuda em frente de sua casa, que é comum de bairro e que não é de inclusão. Patrícia abre mão de sua vaidade e de muitas coisas para pagar tratamentos como fisioterapia, fonoaudióloga e música. Afirma que tudo é muito caro e que a alimentação é um desses exemplos: ele deveria consumir tudo orgânico, porém não tem condições de usufruir disto.

Ela acha importante que ele conviva com as mesmas crianças que tenham a doença, para que se sintam integradas em sua tribo. Mesmo sendo o único com síndrome de down no colégio, Benício convive com crianças da mesma idade.

Em virtude de ser professora faz seu próprio horário e consegue administrar a rotina entre os tratamentos que Beni precisa fazer. Trabalha três vezes por semana de manhã e conta com a ajuda do marido. Tudo é muito próximo de sua casa, muitas vezes leva a comida dele para almoçar na clínica e depois o leva para a escola.

Sua atenção é redobrada e diz deixar de viver sua vida, para viver a dele. Devido à hipotonia muscular do pequeno os cuidados são redobrados principalmente ao de descer e subir escadas e durante as refeições.

Por ser educadora considera não ter dificuldade em saber os direitos do filho, mas diz que o Governo não oferece esses direitos se não for atrás.

Para ela seus momentos mais marcantes como mãe foram quando o filho sentou pela primeira vez com quase um ano de idade enquanto estava no sofá assistindo TV. Pois ela o olhava e acreditava que não fosse sentar nunca. E quando sorriu pela primeira vez, que foi aos oito meses. Hoje entende que o processo dele é mais lento que de outras crianças e que tudo tem o seu tempo. Atualmente celebra ao dizer que ele com três anos faz tudo que outras crianças fazem nessa idade.

Passou por momentos árduos na maternidade quando o garoto vivia internado devido a complicações respiratórias. As faltas no serviço, mesmo justificadas para acompanhamento, não foram toleradas. Foi mandada embora do colégio em que lecionava.

Atualmente sua preocupação é com a juventude do menino, justifica que quando é criança ainda se tem comoção, mas não sabe como será no futuro. Acredita que quando entrar na adolescência vai ser muito difícil, devido à puberdade, namoro e questões que envolvem o período de adolescência.

Ciente do amadurecimento como pessoa afirma que até sua postura como educadora sempre muito exigente mudou. Hoje conta que é mais perceptiva e cuidadosa em sala de aula.

Ao lembrar de uma das conversas com o marido sobre a descoberta da síndrome, lembra das palavras do esposo: “Veio pra gente porque a gente precisa evoluir em alguma coisa”. “E já evolui bastante!” ela conclui.

Ao definir o amor pela sua cria diz: ”Ser mãe é viver intensamente. Porque quando você diz para um homem ‘amo você’... Nossa Senhora, para um filho é infinitamente maior. E olha que eu fui muito apaixonada, tá? Sofria de amor na adolescência. Mas hoje eu olho e penso ‘gente, que amor é esse?’ É um amor que dói, sabe? É uma explosão de sentimentos.”

As mudanças na rotina desta mãe vieram também com sua mudança como pessoa.Benício não cresce sozinho, Patrícia cresce com Benício. A professora que sempre ensinou por anos os pequenos, hoje é aluna do próprio filho.

Texto: Alex Brandão
Foto: Isadora Gonçalves